terça-feira, 19 de outubro de 2010

Trilogia (exercício do Tantas Letras - Personas)

I
cores

“Assim também a casa – representação simbólica da alma”
Milton Sabbag Jr.

olhou o seu quarto com olhos diferentes: desenraizada. o chão de terra batida não era o mesmo, a parede de madeira duvidava de sua própria cor girando no prisma. a pele do pé que tocava a terra, duvidava do chão. Onde se pisa, pisam os porcos que deixam nos rastros restos de comida. o que ao porco não serve, serve a fátima e sua família. quem sabe um coração de porco a salvasse do antigo mundo, desse a ela o novo que se abriria no fundo de cada outro mundo que é um outro alguém. a flor natural de casca de tomate, negada ao porco, efêmera, lhe cairia na boca como uma barata a ser triturada entre dentes, estava ali, posta: antes do jantar, o abismo da eternidade se fizera; decisão amara, necessária, vital. era preciso ruminar a flor sem pulso, só de casca, já passada, rejeitada por todos por quem passara. a flor de tomate merecia um fim. a fome comera a flor sem pulso , melhor seria ter se alimentado de vida ao invés de morte que se morre a cada dia. não pudera culpar o coração de porco, nem aos dentes famintos, nem mesmo a eternidade da decisão sem saída. quem pode diante do alimento morto cheirar os lírios do universo, ventar o pulso da hortência e a efêmera linha que separa as lições da beleza do prisma parado.
II
volver

a parte do ex-casamento que mais lhe faltava era a Cozinha. tivera sua casa de boneca por uns tempos, valia o sacrifício para fugir da infância entre restos de porcos. o marido não era de se confiar. a mão que existe para o tapa uma hora explodiria em seu rosto. sua filha não entendera o pai carinhoso, sem pudores e que prezava intimidades com ela. a filha gritaria a quem estivesse disposto a ouvir. a mãe perdera-se no seu sonho de boneca. restava para a menina a escola para o desabafo e, para a mãe, a mão pesada da lei ameaçara outro tapa. A mãe não quisera acreditar na possibilidade do horror, obrigou-se ao retorno, o seu horror particular. voltaria a sua infância maldita entre restos de si mesma, alma antiga.

III
concha

Apego. espaço do passado, presente no desejo. já tivera um lar, uma casa linda, arrumada; porém a um palmo do nariz: podridão. renuncia. filhos em primeiro lugar. lugares que a imaginação não quer tocar. o horror da possibilidade impressa na testa da filha. a volta para a concha essencial. Se pudesse, nunca volver a infância desgraçada de sua memória. A cozinha: porão desorganizado por ratos. coisas suas, queridas, entre dentes roedores. cozinha é quarto. quarto é corredor. quarto é cozinha. corredor-quintal para estender roupas. quisera
a vida toda ser dona de casa, ter marido e filhos – nada além disso. mas a labuta é diária. a dependência dos pais, do irmão são indispensáveis. da irmã, amargura descontada em seus filhos. a cozinha lhe dói n’alma.

(Sol) Lyllytthhg
outono/2010

centro agitado do Silvina

no cruzamento
de cinco ruas

almas enfileiradas
por ordem de tamanho

crescente caminho
aos céus

ou pro inferno?

cata almas
cata casas
cata vento
cata boteco

parabólicas
captam
neblina nos olhos

inverno/2010
(Sol) Lyllytthhg

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

infância

árvores que abraçam com a calma do ar puro. caminho só de ida, para na memória, no pátio da rua sem fim. pega-pega, carrinho de rolimã, fubeca, gol a gol no portão de madeira do vizinho. no pés, chinelos havaianas e dedão sem tampão. cirgarras no fim de tarde. esconderijos nas casas e crianças em construção.

(Sol) lyllytthhg
inverno / 2010

domingo, 23 de maio de 2010

alvo

o feto
é virgem
de palavra

a existência
antecede
o nome

o nome
dá-se
a existência

o ser
batizado
no verbo

aponta
o branco
sangrado

(sol) Lyllytthhg
outono/2010

Enigma

e se do vazio
sempre fica um pouco

e se do pouco
constroi-se o mundo

e se do mundo
movem-se as guerras

e se das guerras
inventou-se o chumbo

e se do chumbo
nascem as flores

e se das flores
permanece a brevidade
do vazio

(sol) Lyllytthhg
outono/2010

ourides

fonte
:ela

quem sabe de ti
por uma janela?

ouvires
a fonte

ela era

suspensa
em uma

janela

bem presa
ao concreto
está a fina
parede
de meu seio

o sol
congela
em meu peito
o pesar
da ferrugem
nos ossos

(Sol) Lyllytthhg
outono/2010

gaiola dentro de uma gaiola

porta aberta

ausência de lua
que a gaiola
não comeu

ausência
de chave

quadrado-mágico

balões

fumaça

piscina de bolinhas

cheiro

de João e Maria

Mas eu gosto do inútil

Ficou olhando pro leite
Perdeu o tempo
Chegou atrasado
Perdeu o emprego

sábado, 20 de março de 2010

em busca

fagulhas de mim estão perdidas em palavras e silêncio e neste momento apenas procuro o vazio da ausencia que não se completa em mim. você viu a minha palavra mágica por aí?
de que não-matéria é feita o silêncio?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

flutuar

almas
sem corpos

segundos de eternidade

transcendência

:abraçar o mundo
em você

(Sol) Lyllytthhg
ainda inverno – 2009