segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Francis Ponge

CHUVA
A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.Cada uma de suas formas tem um andamento particular; a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto casual, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.
(Trad:
Júlio Castañon Guimarães)

Francisco Alvim

Francisco Alvim

Canto

Ária branca – aderência
em muro branco
neste dia tão solar –
dia dos mortos
dia do antes
É como se o olhar tornado
inumano
por força do branco
soasse
livre do longe e do perto
de si mesmo referto
na desmesura do ar
Longe ficaram as montanhas
Perto o lago não está

Francisco Alvim

Frio

Francisco Alvim

Pedra na fonte –
água que tudo esconde:
fronte

Névoa no rosto –
vazios de ouro:
frio
Esquece o esquecido – amadurece o estio:
veste

Ruy Belo (português)

Algumas Proposições com Pássaros e Árvores que o Poeta Remata com uma Referência ao Coração
Ruy Belo

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Shophia de Mello Breyner Andresen

Há cidades acesas

Há cidades acessas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades acessas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfurme.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Noite e casa

A noite reúne a casa e o seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até a flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vazios

Sophia de Mello Breyner Andresen

Portas da vila

I
A casa está na tarde
Actual mas nos espelhos
Há o brilho febril de um tempo antigo
Que se debate emerge balbucia

II

Como um barulho de papel o vento range na palmeira
O brilho das estrelas suspende nosso rosto
Com seu jardim nocturno de paixão e perfume
A casa nos invade e nos rodeia.

III

A casa vê-se de longe porque é branca
Mas sombrio
É o quarto atravessado pelo rio

IV

A casa jaz com mil portas abertas
O interior dos armários é obscuro e vazio
A ausência começa pousando seus primeiros passos
No quarto onde pousei o rosto sobre a lua

sábado, 27 de setembro de 2008

Retorno

Cadê o retorno?
Depois que mergulhei no nada branco de Clarice
Continuei a dirigir
Olhava as placas e dirigia
O dia era claro,
Maravilhoso, contente por fora
Mas o ovo interior
Não permitia em mim nenhum tipo de retorno.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008

Sobre lírios

Obsessão de silêncios e realidades indizíveis

Sobre o que não conseguimos falar, devemos calar

Nosso senso de mundo é construído na linguagem

E minha língua é influenciada por um meio e por outras línguas

E onde, então, cabe a linguagem do silêncio?


Um lírio impessoal não se sente abandonado

no seu silêncio solitário
Mas se ele se banha em sangue
Ele muda sua impessoalidade genérica

:trans
forma
ção
de
forma
ção


[lírio vermelho]

(Sol) Lyllytthhg – quase primavera/2008






Será que algum dia alguém notará que antes de um lírio ser vermelho ele já foi da paz?

o lírio da paz cresceu em seu tempo e floresceu um som imagético
da infância branca entre tantas outras infâncias brancas
este lírio da paz fez transparecer de sua humanidade do de dentro todo seu sangue
ele fora o estranho no jardim da infância

[fascinação]

:o diferente


(Sol) Lyllytthhg – quase primavera/2008

benzim

eu o carrego em mim na sua ausência
e o gosto da sua boca ainda está em meus lábios
mesmo quando o tempo pára, nunca é suficiente
quero cada vez mais de você e até em meus sonhos
meu inconsciente busca você sem me explicar
e não é a primeira vez que sinto isto
mas agora há certa tranqüilidade no ar
um êxtase de embriaguez de idade madura
e é estranhamento, e é trovão, e é sol, e é rio
e sou eu e sou você e somos tudo isto
sem tentar compreender, apenas aprender sentindo

Sol - quase primavera/2008
choques

tem pessoas que precisam chocar-se com outras pessoas
e esta é única forma possível de sentir algo na cidade fria
seres extremamente carentes de contato metálico e vitral
ausência do toque desconhecido fora das batidas de frente


e o maior desejo é voltar para casa com uma liberdade sorridente
sorrisos livres que escurecem cada lanterna deste trânsito infernal
chega de choques, fechadas, xingamentos e encruzilhadas

cansei-me desta agressão gratuita, deste chutar cachorros na rua
ao invés de buzinas quero olhares e sorrisos sem um único soco
não quero mais tantos esbarrões para quebrar a minha solidão
(Sol) Lyllytthhg - Primavera

Imagem da balsa, Riacho Grande, São Bernardo do Campo...
É desta visão a minha maior saudade
o dia nascendo, a noite derretendo,
a linda lua in lírio.
Bebo sozinho ao luar

Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea...

LI PO
(poeta chinês adorador da Lua e do vinho - morreu embriagado quando estava em seu barco em e tentou abraçar a lua...)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

terça-feira, 9 de setembro de 2008

ritmos do dia-a-dia

Ritmos do dia-a dia

“Que importa o sentido se tudo vibra?”
Alice Ruiz

É tempo de sentir
E sentir
Forma de saber
[sem saber]


Ritmo
Palavras
Criação


E se as palavras viram música e do nosso jeito de falar igualmente cantamos, talvez não seja apenas o canto, talvez seja uma postura na vida, no som do dia-a-dia.
E nos passos há um ritmo e mais desafiador é o com[passo] em grupo: com meu passo, com seu passo, com nossos passos: passo a passo, a arriscar, experimentar, recolher, fluir, calar, passo a passo, encontro a encontro. Um caminhar gradativo: pouco a pouco - juntar.
Disciplina é tão difícil, racionalizar tão frustrante, então, talvez seja mais que isto, apurar os sentidos, o ouvido, sentir os passos e nesses espaços vivos do corpo, entre uma consciência e outra, dar lugar à vivência de músicas internas e coletivas ao mesmo tempo.



(Sol) Lyllytthhg –Inverno/2008

18 corpos

18 corpos

DA COMPOSIÇÃO DE DEZOITO CORPOS ACORDADOS
CONSTROI-SE UM GRUPO NA MÚSICA EXPERIMENTADA
O EU MODIFICA O VOCÊ E FAZ O NÓS
COMPOSIÇÃO A RESPIRAR IMPULSOS DE SONS
E TODAS AS PARTES DO CORPO
E TODAS AS PARTES DE TODOS
SÃO INSTRUMENTOS MUSICAIS
DO SILÊNCIO DO DE DENTRO
SURGIU O SEU JEITO QUE VIROU O NOSSO
O MEU SER, VOCÊ PEGOU PRA SI
(TRANSFORMOU)
AGORA,
SOMOS UM ÚNICO PULSAR.


(Sol) Lyllytthhg – quase primavera/2008

corpos

corpos
a composição musical habita meu corpo com meu mais novo amor
acabo de chegar às nuvens em estado de transe
orgástico sentir de plenitudes do silêncio do de dentro
e o seu jeito virou o nosso jeito, o meu ser você pegou, transformou, silenciou
a música respira em impulsos de sons de corpos acordados
e você me experimenta, modifica, fica, passa, leva, vai e volta.

(Sol) Lyllytthhg – quase primavera/2008

vértebras tensas no caminho: ossinhos, costas, músculos

– respiração –

som entrelaçado ao jardim do coletivo
a idade do céu circula no verde quintal, nas folhas luminosas da boca

(brisas)

recolho na rouquidão tensa do corpo a voz que desde sempre existiu
esta voz apenas passeia no grupo

volta a imagem daquele aeroporto antigo e de sua silhueta partindo, sumindo, indo, indo
aquele momento era despedida e você nem sequer avisou
desde então recolho em solidão este nó na garganta

(Sol) Lyllytthhg – quase primavera/2008

Grânulo

Da pura emoção é fabuloso o silêncio da boca entreaberta:
deserta denúncia sedenta por mais um beijo.

Ainda é recente o gosto da areia que voa no vento
e deixa o toque de seus lábios em meu deserto sedento
que desatento não tem argumentos frente ao sentimento

:Recém-nascido do abismal silêncio do de dentro.


(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008

Fractal

Em meus pés descalços pela vida, os grânulos foram fractados em mim
:sal grosso entre dentes de areia levemente úmida de saliva fria,
angústia indecifrável do seco mistério surdo que paira em meus veios

Fractal: eu me refaço em várias proporções idênticas a partir de uma única seiva.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008


Romantismo

A respiração mata-me a cada segundo
Num suspiro sôfrego caio em abismo absoluto
Ainda sem sangue tísico, afinal, o século é XXI
Mas os ares que me rondam são século XIX
A dor romântica que se prega em mim
Falece-me momento a momento nesta dificuldade de ar
Meus pulmões estão dilacerados e este sufoco me mata
Como o prenuncio do choro de uma criança sentimental
Que se perde no sentir por não saber o que fazer com isto.

Não sei mais se o mal de meu século é emocional
Ou se eu seria simplesmente tuberculose ambulante
A caminhar em tempo errados, seria eu século XIX?
Assim seria mais fácil, teria desculpa plausível
Aceitar-me-ia nesta obsessão sem nome
E talvez quem sabe poderia ao menos dizer que
Um dia, soube o que era o amor enquanto morria.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008

tempo

quisera eu ter tempo a contento
para respirar palavras de meus livros prediletos

quisera eu viver em tempos
que escrever e ler fossem meu trabalho direto

quisera eu ser transfiguração
a viajar em máquinas do tempo
e deliciar-me na viagem
de escritores que ainda não conheço
e no eterno quase contento
não mais precisar alimentar o corpo
apenas, deixar o espírito
correr, derreter, desfazer e refazer
em escritos compulsivos de loucos deprimidos.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008

Marcas do vermelho

Desprende de mim esta dor sem nome,
escarro crônico que engasga meu ar
a deixar o sol em meu rosto: sardas.
Antes: fora transparência fantamagólica.

O branco inundou-se de vermelho sangue
:o escarlate sorrateiramente invadiu
meus cabelos, meu rosto, meu peito, meu corpo

Os pulmões dilacerados pelo bombardear do músculo
fizeram-se ar em toda a pele
renovando a vida desta que não mais sentia.

Renasci do músculo.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008

Eclipse

O eterno quase encontro do sol e da lua. De repente. Aos meus olhos, eclipse desnudo na minha frente. Não que estivesse ausente antes. Sempre esteve ali, naquele exato lugar, visível. Nem sempre se vê com os olhos. Simplesmente eu não olhara, não vira o quase eclipse ou me deixara senti-lo: visível ao invés de perceptível, intrínseco. Um elemento sem forma me toma em meio a este contato tão visível a olho nu. Talvez não o quisesse na minha consciência, era melhor a ingênua felicidade da ignorância pura. Dois impulsos sedentos de ação atrofiaram em mim. Dois astros tão sedentos de si mesmos que mal podiam os olhos encontrar, nem mesmo usufruírem o mesmo ar, nem mesmo os mesmos corpos em um único lugar. O que fazer deste eclipse inevitavelmente impossível; acima da minha cabeça total escuridão. Talvez se eu voltasse ao início para tentar uma compreensão.
Não li, vi ou ouvi jornal, estava desavisada ao gosto do destino que me aguardava calmamente. Início: boate GLS, pleno centro de São Paulo, nostalgia cor 80: tempos de criança. Amigos (?), já não mais os mesmos. Como era bom retornar ao início da vida, quando era fácil ser, bom estar criança, sem jogos e responsabilidades chatas, viver era um eterno aprender brincando naturalmente. Flertar era cor vermelha diante de olhos sorrindo, leves toques de mão e um beijo tímido ou outro no rosto. O importante era a pureza do amor sem complicações desprendido de conceitos e posicionamentos.
Desprendidamente meus olhos sorriram para os olhos mais puros que já havia visto antes, grandeza mar claro. Maremoto em meu ser interior, mal podia ouvir o som oitenta gritante em meu exterior. Éramos sós: eu e o imenso mar. Um mar imensamente feminino, mesmo assim não podia resistir àquela grandiosidade sem forma que bombardeava dentro de mim e me prendia a um invisível fio azul claro. Eu, um ser também feminino como pudera chegar a outro mar grandiosamente feminino. Talvez por que já vinha me dando conta de minhas atitudes masculinas, de meu “eu-homem”, agora quisera tomar posse de meu eu tão escondido. Seria eu verdadeiramente Sol sobre a imensidão do mar feminino. O mar a tomar a lua em sua escuridão e querer em eclipse de nossos “eus”?
Sei que apenas fiquei, ali, inerte, frente à situação. Fiquei inútil com meus pensamentos a mirar aquele azul tão delicado e feminino. Tinha sede de sal. Nunca tivera saciado sede salgada anteriormente. Como tal sede me trazia fel. Negava-me em completo breu, ocultando-me atrás da lua a desfilar em ações pelo salão e tocar em meu desejo de tomar o mar. A lua já conquistara o mar. E o mar feminino num toque de masculinidade fitava-me em sorriso e convite. Mesmo assim não descartava a lua que me ignorava em aceitação submissa ao mar.
Naquele momento eu era a própria escuridão do não que impede o tão quisto sim. Impossibilitada de qualquer movimento, lá fiquei estátua a ver se aproximar do mar a lua sobre meu brilho de Sol. Era noite e a Lua estava sobre o mar. E eu, o Sol escondido, apenas em minha luz inverte a esconder meus desejos de tomar a água salgada junto a Lua Gay. Ansiava toda aquela imensidão de mar para mim, mas teria de aceitar o eclipse total de mim. O mar convidava-me a tomá-lo, mas haveria uma condição: queria apreciar junto dele um fenômeno raro e natural. A junção plena de seu desejo masculino e feminino. Ele naturalmente amava o eclipse.
Da sensação de plenitude natural nunca saberei, pois naquela noite, naquele lugar, naquele momento, o eclipse era impossível. Se existiria possibilidade de um dia o Sol tomar o mar, não saberei, pois fiquei apenas a contemplar paralisada a imensidão feminina e masculina daqueles olhos azuis, a me perguntar se seria, eu capaz, um dia, deixar um impulso desta natureza me tomar.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008

quintais

o dia, o inverno, o quintal...

ainda no inverno, um pouco mais ameno, há traços de letras no ambiente e momentos respirados em palavras cantadas em coro. enquanto o som ancestral da palavra nasce de algum sentido oculto repleto de “agora”, habitado da composição da liberdade criativa, dissolvem-se as unidades de células e sangue e misturam-se as habilidades numa só música: emaranhado de vozes conectadas em fios invisíveis que perpassam o ar verde do quintal - alquimia inaugural que faz de todas as células e sangue um só presente.

do mesmo modo que a palavra nasce de um sentido velado, o som a partir da palavra só tem sentido de ser na construção do grupo. nascem de dedos, pés, costelas, poros, pêlos, fios de cabelo, caixas de som, de pedaços de “nós”, o inteiro.

e das palavras nascem emaranhados de sons e de corpos em movimento-impulso, no pulso, no quase ritmo do tudo que se fez do silêncio.

Deixamo-nos acontecer a partir dos sons das palavras, dos corpos, dos movimentos. Deixamo-nos repletos de “agora”
E neste lugar há somente este presente livre do “lá fora”
Somos outros, ou talvez nos mesmos como em nossa ancestralidade primeira

Dentro deste verde talvez o “nós” nasça da árvore, que já está condenada,
E da morte pela raiz o “nós” renasça vida.

(Sol)Lyllytthhg - quase primavera/2008



o beijo que se encerra antes do fim

o beijo que se encerra antes do fim

o beijo cessou antes de nascer
uma boca aquecida de passado
encontrou com a brasa pulsante de outra boca

(a segunda boca, grávida de “agora”)

e na ausência da boca grávida
a primeira, saiu pelas ruas
com pulso flamejante nos lábios que quase foram beijados
e carregou consigo o desejo do não acontecido

e o quase já era a própria festa para a primeira boca
êxtase de sentidos e de não
paixão não pela outra boca grávida, mas sim, pela vibração
pelo toque pleno dos sentidos ainda nem nascidos


(Sol) Lyllytthhg – quase primavera/2008

faça

Faça

Fico a dizer palavras cotidianas
Para ocultar num ritmo aparentemente dito
Aquilo que não é dito e de fato importa
Então, porque não facilita e me abre uma porta
Dê-me um sinal, de olhar fumaça,
Som canela, espirro feitiço, faça uma graça,
Atravesse a calçada, dê-me uma porrada...
Mas faça e vê se pára com esta farsa
De fingir que é, só quando se está naquela praça
Ou então, me abraça e vê se afasta esta distância
Que nos acompanha frente à mesa deste bar
Por favor, não disfarça: faça – fica ou passa...
Faça e vê se deixa esta pirraça dissipar da nossa vida falsa

(Sol) Lyllytthhg - Inverno/2008

sexo do século XXI

sexo do século XXI

mostrar-se como realmente se é
é tão velado num mundo de máscaras
cheio de caras incisivas de não
mas, ainda sim, jogam-se do 11º andar:

busca-se em morte voltar a viver
e no próprio coração
usar-se um desfibrilador para ver
se em urgência ressuscita-se a razão.

no grito da morte em águas
se quer uma razão, a todos tão cara -
morte plena em mar absoluto.

cansaço interrupto de sentimento insensato,
relações de corpos desalmados,

[tão só defuntos em vida]

escravos do contacto híbrido da morte.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008

Fidelidade



Livres de amarras e do amor, os dois insistiam em caminhar no mesmo compasso, alinhados, conformados, entregues a situação. Há anos haviam se aceitado como opostos que eram. O caso era de coincidência, ambos disponíveis a poesia, por um instante tocaram no mesmo impulso de caneta... E como se não bastasse haviam dito, num coro exato, o mesmo trecho daquele soneto: “Que seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”. Depois disto tudo era tentativa cansada de coincidência. Mais valia a poesia na mão do que outra tentativa coincidente na vida.
E assim os anos se passaram num cotidiano cronometrado e medido. Como era preciso dinheiro ter, trabalhavam. Não com literatura, mas algo lucrativo. Ele trabalhava na bolsa de valores de São Paulo. Ela gerenciava um departamento de engenharia da Ford. Seres do mundo capitalista a terem como hobbie a poesia que um dia os unira. Porém, sobre poesia, não mais tiveram tempo para falar, em meio aquelas cansativas conversas cotidianas. Em tempos diferentes, cada um em seu particular momento, às vezes, ainda lembravam “E assim, quanto mais tarde me procure/ Quem sabe a morte, angústia de quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama”. E se ser poeta é ato de solidão, poetas nunca deixaram de ser.
Não mais tiveram conversas embriagadas, que antes, tanto fluíam na busca do tempo perdido sobre o que ainda não haviam conversado. Filhos? Não que desgostassem, simplesmente não vieram. Profissionais de sucesso, agora, em idade madura. Um respeito solene. Quanto às intimidades da carne, cumpria-se o dever. Ritual sagrado era a viagem anual de férias, com a que a precedia: negociações, acordos e contratos a cerca de que lugar conhecer e do que fazer.
Perante a sociedade e seus próprios olhos nebulosamente míopes, o ideal de satisfação era visível e invejável. Que perfeição suscetível à cobiça alheia de quem vê de fora. Assim a vida seguira por duas décadas. Mais uma viagem de férias se aproximava. Coincidentemente, neste vigésimo ano de convivência, optaram por retornar ao lugar de férias onde se conheceram. E onde, pela primeira vez, falaram sobre o soneto.
Eram jovens sedentos de arte em palavras e silêncios. A brisa acariciava seus cabelos, a maresia embriagava o ar que ambos sugavam revitalizando o corpo. Sob eles um muro fincado em gélidas areias. Sobre suas cabeças um breu arroxeado salpicado de átimos de luz. O que os fizeram cair de bunda na areia gelada e deixar tal muro tanto tempo erguido à frente deles? E ainda mais, o que os mantinha em lados opostos?
Deste instante, em comum eles mantiveram a paixão pela poesia, em especial, sonetos de Vinícius de Moraes e Pablo Neruda, e o gosto pelas viagens de férias. Já não mais tão jovens, no auge da meia idade, ambos, a pouco, haviam entrado na crise dos quarenta e poucos anos. Esta decisão poderia resgatar neles os jovens que um dia foram, mais ainda, a embriagues fluida que um dia os unira. Quem sabe até aquelas longas conversas poéticas. Mas teria sido impossível manter a poesia na vida cotidiana? Ou seria só o Chico Buarque capaz de transformar o Cotidiano em poesia? Seria quase como decifrar o eterno mistério do ovo e da galinha?
Sim, um dia talvez perguntara, ela. Ele também, talvez, questionara. Quiseram em algum momento da vida ter poesia em vida ao invés de cotidiano em morte. Em nome de quê? Em algum instante souberam? Em nome de quê? Alguém ousaria pronunciar o sentimento e nomeá-lo: amor. Não fora nenhum dos dois que fizera isto. Acomodados, acostumados: casal. Assumiram o papel social de serem um. De fato eram ou apenas representavam?
Sabe-se apenas que por vinte anos já conviviam juntos. Um dia houvera veracidade e embriagues de sentimentos entre eles. De fato um dia existira sentimento sem nome, paixão coincidente (?), embriagues pela presença mútua. Sabe-se também que haviam aceitado o sim, mas o sim para quê? Isto, nem eles sabem. Um dia, estiveram distraídos.
Sem distração: malas prontas, passagens compradas. O táxi a buzinar na rua. Era o sinal; hora de partir. Ele e ela: eram um. O que se pensara? Seria um momento de racionalizar ou de se sentir? Também, não se saberia. Do instante que o buzinar se intensificara, o sentir de rosa se diluía em pétalas. Em pedaços ela tornara-se estátua. Ele, também de reação engessada, tivera medo da verdade vazia de sua vida.
O som desfibrilado do coração a ensurdecia. Ele a olhou com horror de quem não mais pode ter um coração a bater: a máscara era agora insuportável. Como poderia resgatar o que nunca existira? Então, percebeu-se poeta morto e que a ajudara a matar-se também. Em nome de quê? O som cortante da buzina petrificara seu sangue. Cada microparte de seu corpo era impossibilidade de movimento. Apenas uma fogueira gritava em seu olhar.
Ela em disritmia de terceiro grau. Abrira a porta em intenção de dispensar o taxista. Em frações de luzes, Romeu, derretera o gesso do de dentro para chegar à cozinha e gravar no órgão de sua razão uma bala que reservara no revolver escondido no fogão. A buzina cessou no exato momento em que um corpo caiu ao chão junto a um desconhecido som abrindo um buraco fundo de sim. No exato momento em que Julieta acabara de tocar no papel amarelado com a inscrição do “Soneto da fidelidade” que carregava no bolso, junto ao dinheiro do táxi, a fim de entregar a Romeu quando no aeroporto esperassem o anúncio do vôo.
(Fidelidade a que?)


(Sol) Lyllytthhg – Inverno/ 2008

dois experimentos

Depoimento

Entre dentes a tenra massa a derreter-se até escorregar para a garganta não mais engasgada. Nem sempre houve passagem para o ar neste corpo que agora tenta ser movimento. Cada poro seriamente entupido. As articulações engasgavam-se e havia apenas o tropeço sôfrego daquele que nunca experimentou o novo do movimento que nasce do impulso mais fundo que grita em ação.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/ 2008


negação/afirmação


NÃO NEGO
NEM ESCO
NDA (O)


(Sol) Lyllytthhg – Inverno de 2007





Gravidez

Gravidez

E em tentação ficariam. Ambos de um amor maior que a Terra, amor sem destinatário. Ninguém específico. Mas o que fazer de tamanho sentimento sem correspondências? Amavam se amarem. E doía o indestinatário. A tentação de sentir é um ardor tremulo de súplicas ignoradas pela consciência. E o coração pesava-lhes com prisão precisa, vacilantemente libertária. Eles se entreolharam num segundo de esvaziamento. Após este segundo engasgaram o impulso do amor que tanto buscavam, para nunca desengasgar. O amor estava dentro de cada um, engolido a seco. Correspondências não passavam de lenda. Neste instante, o chão deixara soar a abotoadura que se desprendera dele. Um único som no abismal silêncio do desencontro de dois olhos fixos em seus brancos. Em respeito à impossibilidade de compreensão, deixaram-se entregues ao nada branco de seus olhos. A distância curta dos corpos prolongava a linha invisível das almas sedentas de possibilidade de amor. Em silêncio, se olhavam distantes. E não haveria consolo para quem visse a cena. Quanto a eles nem pensariam, ao menos naquele momento, sobre a possibilidade do que aconteceria. Intuíram a brevidade daquela não correspondência, daquele não-encontro. Entregues aos segundos que sucederiam, disponíveis ao não-amor. Respiração suavemente profunda e sagrada. O susto repentino. Ela dera apenas um passo, lentamente se aproximara e recolhia com tal amabilidade maternal aquela abotoadura. Apenas um palmo separava estes dois corpos, tão entregues a si mesmos, tão vazios de amor engasgado de possibilidade descorrespondente. A brancura ocular dera lugar ao esverdeado e ao preto (do olho dela). Um fio de luz conectou duas almas. Eles haviam nascido para o não-amor, a não-correspondência. Deveria haver cores no branco? Foi então que ele quis amar o amor dela, como que se desde sempre tivesse existido para aquilo. Ficou aterrorizado e tremulo por dentro, em seu corpo nenhum gesto mínimo sequer. Ele a quisera feliz só por não amá-la. Mas quem deveria resolver o nascimento era ela, em sua possibilidade de mãe. Frações eternas de segundos silenciosos. Entardecer no milagre do deserto urbano. Duas pessoas praticamente imóveis no coreto da pequena praça. O som fino e cortante de uma abotoadura. Os sapatos dela não interrompiam aquele único som preciso. Apenas o sentimento maternal deveria resolver o nascimento. Porém, ela, decidira. Ela pegara a abotoadura, caminhara até ele minuciosamente. Mirara o esverdeado cercado pelo branco de seus olhos. Deixara que ele fitasse a escuridão de seu olhar. Permitira a distância de um palmo entre seu corpo e o dele. Entregaria a abotoadura? Ele já a amava e a queria feliz... Ela permanecia impossibilidade de amor apesar de seus gestos maternais, não sabia como era isto. Num átimo de esperança esverdeada, ela sentara calmamente, abrira sua mochila e retirara seu caderno de poesias. Selecionara uma caneta de gel rosa e num pedaço de papel meticulosamente retirado do caderno infantilizado e anotara seu telefone. Ele, em seu amor gratuito, começara a entender... Ela enganchou a abotoadura no pedaço de papel com tal inscrição numérica. Permitiram-se esquecer as formalidades de nomes – ficaram grafados apenas os números. Sem uma palavra, hipnose por hipnose. Ela guardou friamente seus objetos. Arrumou a mochila nas costas. Levantou se desprendendo dos filhos que um dia poderia ter. Entregou a ele a abotoadura enganchada no papel com inscrição numérica. Disseram-se silenciosamente em quatro segundos. Ela virou-se e foi embora. Ele a amara e quisera que fosse feliz. Permaneceu inertemente maternal e silencioso naquele coreto de praça. Aos poucos começou a ouvir pássaros cantando, pessoas burburando, carros em movimento. Voltava ao mundo real: grávido de amor.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno de 2008

prosa?

Não me importa a galinha

“O ovo é uma coisa suspensa, nunca pousou.”
Clarice Lispector

instaura-se em mim uma verdadeira confusão sem nome. um incomodo acima do estômago. um sono acordado que quer deixar a mente repousar mas faz o ovo borbulhar em sua brancura tão supervisível. pensamentos insistem em existir. tento a todo momento não racionalizar, há um vão. sinto-me inútil na arte do não-pensar, do não existir, do sim. sim ao nada, sim ao branco, sim ao vazio, sim ao silêncio. Silêncio? apenas não há sons externos pois, em mim há um risco de giz que se repete supersônico sobre o quadro negro e ao terminar novamente se inicia. que fazer de tamanho incomodo desprovido de cor e visão, apenas som arrasador a triturar meus pensamentos agora inutilizados no que melhor fazem: racionalizar e pensar. não me interessa a galinha mas, agora, não tenho como ignorar o ovo. me irrita importar-me com o que nunca importei-me e com o que não me dizia. este dizer é desfeito em palavras, acerto em silêncios. som desconhecidamente soco riscado. prefiro o quadrado com quinas, visivelmente cutucável, visualmente incomodo que não dói. agora, este redondo instaurado e interior machuca lentamente pela incompreensão circular sem início, sem fim, sem meio, sem. brancura circular silenciosa que começa acalmar a mente dando espaço ao coração disparado e desandado. o giz cessara? ou o tambor do coração se sobrepôs aos riscos finos e gritantes que antes não cessavam. meus ouvidos ensurdecem na avenida interna de meu eu e talvez, agora já não sinta tanto por tanto ter pensado, como se estivesse em transe entre o racionalizar e o sentir. é tão melancólico este... tanto faz. apenas entrego-me ao tambor que me impulsiona a inércia mental e ao êxtase de estar neste momento. maravilhada, embriagada de agora. mas novamente vem-me o ovo – porque, como já afirmei, não me interessa a galinha. e o ovo? haviam tantos tambores extasiados cantando flutuantes sons que o ovo escorregou de mim e caiu no chão.

(Sol) Lyllytthhg – Inverno de 2008.

Lascas de esmalte

O desgaste quebrou o vermelho vivo de minha unha. A cor desbotada dá lugar ao rústico, autêntico: cor de unha. Cansei de embelezar o simples a partir de hoje não mais vou a manicure. Irei expor e por a mostra o que realmente é. Não que eu não goste do vermelho vivo de minhas mãos, mas repudio o transitar entre o embelezar e o desfazer lento de cada lasca de esmalte a se desprender: deixando o autêntico e o embelezado a mostra, convivendo ao mesmo tempo. Talvez deva aceitar esta minha natureza – ou tudo, ou nada. Desgosto do meio termo, da parte, da metade. Prefiro o inteiro – feio ou bonito, artificial ou autêntico, porém inteiro assumido. Esta história de ser em parte e/ou mostrar-se em parte não casa comigo. Então, ponho no salão a minha decisão: ficar ou não. Cansei-me do muro, da meia luz. Prefiro a vastidão e a escuridão. Hoje será o último dia da acetona. Limpo o vermelho das minhas unhas e deixo como legado, a partir de agora, o autêntico - cor de unha.
Que cor a unha tem?
(transparência)

(Sol) Lyllytthhg – Inverno/2008